Arquivo de CD

2011 – O Resumo

Depois de todas as listas de melhores do ano publicadas, aqui vai o meu singelo resumo do que mais (e de melhor) ouvi durante 2011. Comentem à vontade, digam de vossa justiça. Nada me sabe melhor que uma nova descoberta, independentemente do ano de edição. Sem mais explicações, aqui vai.

No cenário dos grandes artistas, 2011 foi o ano de álbuns novos da globalizada Bjork “Biophilia” e dos britânicos Radiohead “The King Of Limbs” e PJ Harvey “Let England Shake”. Três regressos em grande que arriscaram, cada um à sua maneira, um passo em frente nas suas já longas carreiras.

Do lado norte-americano, óptimos novos registos dos rockers TV On The Radio “Nine Types Of Light” e Battles “Gloss Drop” e dos mui respeitados Bill Callahan “Apocalypse”, St. Vincent “Strange Mercy”, Joan As Police Woman “The Deep Field” e Feist “Metals”. Uma referência muito especial, na recta final do ano, para mais uma excelente gravação dos The Roots “undun” a marcar cada vez melhor o seu percurso único e distinto.

O mundo Indie recebeu de braços abertos as estreias em longa-duração de Dale Earnhardt Jr. Jr. “It’s A Corporate World” e WU LYF “Go Tell Fire To The Mountain”. Quem passou para a 1ª divisão deste universo, em termos de reconhecimento global, foram os Girls “Father, Son, Holy Ghost”, Zola Jesus “Conatus”, Cage The Elephant “Thank You Happy Birthday”, Wye Oak “Civilian”, Hooray For Earth “True Loves”, M83 “Hurry Up, We’re Dreaming” e Royal Bangs “Flux Outside”.

Óptimo ano, também, para o rock instrumental, outrora conhecido como pós-rock, com bons discos de Mogwai “Hardcore Will Never Die, But You Will”, Explosions In The Sky “Take Care, Take Care, Take Care” e And So I Watch You From Afar “Gangs”. Também instrumental, mas de terrenos mais próximos do hip-hop e com pontos de contacto com o dubstep (o chamado “glitch-hop”), os álbuns que rasgaram fronteiras foram os de Rustie “Glass Swords”, Teebs “Collections 01” e os mais próximos do “witch house” Balam Acab “Wander/Wonder”. Com raízes electrónicas, mas de mente aberta, voltaram em força Son Lux “We Are Rising” e Alias “Fever Dream”.

O mundo do hip-hop viu o seu horizonte ser mais alargado com os lançamentos cheios de atitude de Tyler, The Creator “Goblin” e Ghostpoet “Peanut Butter Blues & Melancholy Jam”. Do lado tradicional do hip-hop, óptimo o novo registo de Pharoahe Monch “W.A.R. (We Are Renegades)”.

De produção nacional dois bons álbuns dos guitarristas Norberto Lobo “Fala Mansa” e Filho Da Mãe “Filho Da Mãe”. Mais dois óptimos regressos aos discos de Old Jerusalem “Old Jerusalem” e Carlos Bica & Azul “Things About”. Em estreia, e depois de muita expectativa, o lançamento de PAUS “PAUS” foi, sem dúvida e merecidamente, um dos álbuns mais bem cotados tanto pela crítica especializada como pelo público.

E esta foi a banda-sonora de 2011. O único desejo para 2012 é que seja um ano, no mínimo, musicalmente tão bom quanto este.

“Enjoyed: A Tribute To Bjork’s ‘Post'”

Apresentado e compilado pelo mui recomendável blogue Stereogum, este tributo ao álbum a solo de Bjork, “Post”, é não só um catálogo de alguns dos mais inventivos e singulares músicos da cena alternativa mundial dos nossos dias (Liars, Dirty Projectors, Xiu Xiu, Final Fantasy, Atlas Sound, No Age…) mas também, e mais importante, uma prova de que estas músicas gravadas pela islandesa há cerca de quinze anos atrás continuam actuais e sem sinais de querer envelhecer. A maior prova de respeito e afecto que os intérpretes participantes neste tributo podiam mostrar para com o trabalho de Bjork era pegar nestes temas como se fossem seus. O óptimo resultado final comprova que esse objectivo foi plenamente atingido. Para ouvir e recordar um dos melhores álbuns da década de 90.

Download legal: http://cdn.stereogum.com/s3/enjoyed.zip

Artigo original: http://stereogum.com/enjoyed/

Ellington/Mingus/Roach “Money Jungle”


Gravado em Setembro de 1962, “Money Jungle” é o resultado do único encontro em estúdio destes três génios. Cada um deles foi, sem dúvida alguma, revolucionário na abordagem ao seu instrumento. Como podemos pensar no piano em Jazz sem nos lembrarmos de Duke Ellington? Ou como escrever a História do contrabaixo sem a revolução despoletada por cada nova gravação de Charlie Mingus? E o que seria de tantos modernos bateristas sem a precisão percussiva de Max Roach? Mas este disco não vale só pelas interpretações individuais mas principalmente por marcar uma diferença em termos de arranjos, que cortou totalmente com o legado quase institucionalizado e cristalizado dos tradicionais trios piano-contrabaixo-bateria da época, e de uma aposta em estabelecer novos limites dentro do género. E em relação aos temas gravados, podemos ouvir quatro estreias ellingtonianas: “Money Jungle”, “Fleurette Africaine”, “Very Special” e “Wig Wise”; bem como novas roupagens para três standards: “Warm Valley”, “Caravan” e “Solitude”. Em termos de som, existe uma edição em CD (Blue Note 2002), remasterizada em 24-bit e com takes alternativos como bónus, que faz justiça à gravação original.

Como diz Ellington na falsa partida de “Backward Country Boy Blues”, em que a introdução de Mingus é interrompida pelo produtor Alan Douglas: “Ah, that was so good… that was sweet…”

PAUS “PAUS”

Depois do EP “É Uma Água”, editado em 2010, e da participação no CD FNAC Novos Talentos do mesmo ano, a estreia em longa duração acontece com o álbum homónimo agora editado. O supergrupo da cena alternativa nacional (com elementos dos Linda Martini, Vicious Five e If Lucy Fell) apresenta-nos oito temas fortes e desafiadores que andam à volta do Rock e suas vertentes mais interessantes. Como elemento surpresa, já testado ao vivo, temos as vozes que aqui funcionam como mais um instrumento, em coro e sem necessidade de brilhar. Um disco coerente, equilibrado e cheio de temas que vão com toda a certeza amadurecer e explodir nas fulgurantes actuações ao vivo desta banda.